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Obreiros, traçai o vosso sulco; recomeçai no dia seguinte o afanoso labor da véspera; o trabalho das vossas mãos vos fornece aos corpos o pão terrestre; vossas almas, porém, não estão esquecidas; e eu, o jardineiro divino, as cultivo no silêncio dos vossos pensamentos. Quando soar a hora do repouso, e a trama da vida se vos escapar das mãos e vossos olhos se fecharem para a luz, sentireis que surge em vós e germina a minha preciosa semente. Nada fica perdido no reino de nosso Pai e os vossos suores e misérias formam o tesouro que vos tornará ricos nas esferas superiores, onde a luz substitui as trevas e onde o mais desnudo dentre todos vós será talvez o mais resplandecente.O Espírito de Verdade. (Paris, 1861.)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A poesia no divã

Neste post, faço uma avaliação de uma poesia de Fernando Pessoa que acho genial e merece ser lida atentamente:

POEMA EM LINHA RETA

Fernando Pessoa

NUNCA CONHECI quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar.
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

***
Nesse mesmo tempo, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe disseram: Quem é o maior no reino dos céus? Jesus, tendo chamado uma criança, colocou-a no meio deles e lhes disse: eu vos digo em verdade que se vós não vos converterdes, e se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus.
Todo aquele, pois, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus, e todo aquele que recebe em meu nome uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim que recebe. (São Mateus, cap. XVIII, v. 1 a 5).
Aqui, Jesus estava se referindo à maior chaga que afligiu e aflige a humanidade: o orgulho.
E é sobre isto que nosso querido poeta se refere com lúcida inteligência em seu belo Poema em Linha Reta.
O orgulho levado às últimas conseqüências, faz com que todos nós gastemos uma energia imensa no afã de “esconder” dos demais, todo o tempo, aquilo que nos faz humanos, falíveis, tudo o que em última análise é a nossa síntese enquanto seres humanos: somos perfectíveis.
Perfeito só Deus.
Estamos no caminho, e como é longo este caminho!
Quantos percalços ainda teremos que enfrentar! Como somos pequenos e cegos, no sentido espiritual.

“Nós achamos que temos um interior inadequado, no entanto temos um jeito de ser único.
Nós achamos que deveríamos ser perfeitos, no entanto somos apenas seres em desenvolvimento espiritual.
Nós achamos que somos anormais, no entanto somos apenas criaturas vivenciando a normalidade da imperfeição humana.”
(livro: Um Modo de Entender – Hammed)

Olhando desta maneira não parece tudo tão simples? E é. Nós é que complicamos todo o tempo, com nosso orgulho desmedido.
Emmanuel, no livro O Consolador, nos fala sobre o vinculo que os artistas, músicos, escritores e poetas em geral, mantêm com a esfera espiritual. Seus sentimentos e percepções transcendem aos do homem comum, pela riqueza de experiências no pretérito (...)
É que, em vista da sua posição psíquica especial, o artista nunca cede às exigências do convencionalismo do planeta, mantendo-se acima dos preconceitos contemporâneos, (...)
Que tal tentarmos adquirir um pouco que seja desta visão mais abrangente que os poetas têm?

1 comentários:

Kyria disse...

Belíssimo post Jeanne. Obrigada pela sua atenção e comentário, bjs